A morte de Perneta, um dos cães mais conhecidos de Boiçucanga, causou tristeza e indignação entre moradores, protetoras de animais e pessoas que acompanharam sua trajetória ao longo dos anos nas ruas do bairro.
Conhecido pelo apelido devido a uma limitação em uma das patas traseiras, que jamais o impediu de circular por toda a região, Perneta se tornou uma figura familiar para quem vive ou frequenta a Costa Sul de São Sebastião.
Embora tivesse um tutor no passado, o animal acabou adotando as ruas como lar. Nos últimos anos, passou a conviver principalmente com pessoas em situação de vulnerabilidade social e moradores de rua, tornando-se um verdadeiro símbolo da vida comunitária de Boiçucanga.
Nos meses mais recentes, seu estado de saúde já inspirava preocupação. Idoso, obeso e apresentando sinais visíveis de debilidade física, ele era acompanhado por protetoras independentes que realizavam monitoramento frequente e buscavam garantir ao menos os cuidados mais básicos. Perneta utilizava inclusive uma coleira refletiva para facilitar sua identificação e aumentar sua segurança.
Apesar dos esforços da comunidade, o cão foi atropelado nos últimos dias por uma van. Segundo relatos recebidos pelo Gazeta Costa Sul, o motorista não teria prestado socorro após o acidente.
Moradores afirmam que existiriam imagens do atropelamento registradas por sistemas de monitoramento, porém até o momento o vídeo não foi localizado nem disponibilizado para confirmação dos fatos.
Após o acidente, servidores da Regional de Serviços de Boiçucanga e pessoas mobilizadas pela situação prestaram auxílio ao animal. Perneta foi encaminhado para atendimento, mas não resistiu aos ferimentos e teve sua morte confirmada.
Mais do que a perda de um cachorro conhecido, a morte de Perneta levanta novamente uma discussão que há anos divide opiniões: a realidade dos chamados cães comunitários.
Na prática, muitos desses animais vivem expostos diariamente ao trânsito, à violência, às doenças, à fome e às intempéries. Embora recebam carinho, alimento e atenção de voluntários, continuam sem a proteção integral que somente um lar definitivo pode oferecer.
A história de Perneta representa a realidade de inúmeros cães espalhados pelas ruas da cidade. Animais que recebem o rótulo de comunitários, mas que permanecem sem uma solução efetiva e permanente para sua condição.
Também chama atenção a situação estrutural do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de São Sebastião, alvo frequente de críticas por parte de protetores e defensores da causa animal. Diversos relatos apontam dificuldades históricas relacionadas à capacidade de acolhimento, estrutura física e oferta de condições adequadas para a recuperação e manutenção de animais resgatados.
A morte de Perneta deixa uma reflexão necessária para toda a sociedade. Cães idosos dificilmente encontram adotantes e acabam passando a vida inteira sem experimentar o conforto e a segurança de um lar.
Que sua história sirva de alerta e também de incentivo para que mais pessoas considerem a adoção responsável, especialmente de animais idosos, oferecendo a eles aquilo que muitos nunca tiveram: proteção, dignidade e a oportunidade de envelhecer cercados de cuidado e afeto.
Perneta partiu, mas sua história permanece como símbolo de todos os cães invisíveis que continuam vivendo às margens das ruas, dependendo exclusivamente da boa vontade de quem decide olhar para eles.